A internet se baseia em um modelo livre de troca de informações. Até mesmo a própria existência da rede, baseia-se no potencial colaborativo de todas as pessoas que participam e utilizam, de alguma forma, a rede em si. Qualquer usuário, em qualquer momento, pode vir a perceber/detectar um erro ou potencializar uma idéia, uma linha de código, redesenhar um processo atual e implementar um idéia, um texto, uma imagem, som, conteúdo.
Nos processos de aprendizagem adotados mundo a fora, percebo que existe sim uma tentativa de adequarem suas realidades, costumes e culturas a seus conteúdos e metodologia. Com o avanço tecnológico, uma das grandes mudanças que se fez presente no paradigma educacional foi a necessidade de introduzir cada dia mais, a prática, o experimento, juntamente com a teoria. Escolas técnicas ou tecnólogos, ganham cada dia mais prestígio e respeito, como qualquer outra categoria. Percebe-se a necessidade da prática antes da formação concluída.
Mas hoje, vivemos não só sob a ótica de um mundo “globalizado” como também estamos quase todos diretamente conectados pela rede, através dos cabos, ondas e demais formas de comunicação. Passamos cada dia mais e mais atarefados, iludidos pela falsa sensação de “ganharmos tempo” esquentando nossos almoços no microondas e, ao invés de desfrutarmos este tempo ganho, voltamos cada vez mais rápido para nossas estações de trabalho.
Tendo essa nova prática diária em mente; Estamos preparando nossos valores para isso? Estamos potencializando nossas ferramentas educacionais para essas possibilidades? Estamos explorando o potencial de nossas “redes sociais” para aprender mais, para colaborar mais, para compartilhar mais nosso conhecimento?
Acredito que não.
Apenas 9% de TODO conteúdo da internet é produzido por usuários classificados como “ativos” ou seja, apenas 9% dos usuários da rede mundial contribuem com conteúdo, escrevem, compartilham, trocam informação relevante, estudam e publicam seus pensamentos, fotos, musicas, criações em geral, produzem mudanças e afetam a rede. Os outros 91% apenas observam. O que isso quer dizer é que, praticamente para cada 10 usuários conectados na internet, 9 estão “apenas olhando”. Nunca escreveram algo, nunca comentaram algo, nunca expressaram suas ideias, conceitos, alegrias, frustrações ou o que quer que seja.
Sempre me perguntei por que. Na maior parte do tempo, recebo algumas respostas padrão:
- Não tenho nada a dizer/oferecer.
- Não acho que vão ler/comentar
- Não sou expert neste ou naquele assunto
- Não sei escrever
Será? Como assim? Como um ser humano qualquer pode alegar que não tem o que oferecer? Como ele pode imaginar que não é interessante? E como assim, “esperar para ser expert” até poder se expressar?
Lembra-se de como aprendemos a falar? Repetição, erro, correção, assimilação. Todos nós falamos português no Brasil e, ainda assim, ouviremos diferentes expressões e grafias de um lugar para o outro. Isso por que temos a liberdade de expressão acima de tudo. Nosso povo é por natureza comunicativo. O importante é falar…
Quando penso nos modelos antigos, lembro-me que fui ensinado a não errar. Lembro-me de “ficar de castigo” quando não acertava algo ou similar a isso. Esta é a melhor prática de ensinar alguém? Possivelmente, quem estiver lendo este texto, está pensando “claro que não”. Me pergunto novamente: E você? Faz diferente? O fato é que muitos de nós aprendeu a ver o erro. Fomos “adestrados” a perceber o erro. Vemos nossos erros? Não, afinal, se pudéssemos percebê-los antecipadamente, dificilmente faríamos. Aprendemos a “VER” o erro, não a reparar. Aliás, nossa cultura é tão boa em perceber o erro, que nos sentimos bem apontando o erro dos outros. Há quem se sinta ainda melhor quando detém determinada informação que, se compartilhada poderia auxiliar aquele que errou, mas se sente compelida a ridicularizar, menosprezar, inferiorizar o “ser errado/ante”. Antes do auxílio (quando este vem efetivamente) é necessário “brutalizar” aquele que cometeu o erro, a gafe, o deslize, mostrando através de insultos (burro, tonto, sem cultura, grosso…) ou sem antes imaginar que aquela pessoa está tentando se passar por algo/alguém que não é ou tentando parecer mais esperta ou inteligente que o outro, quando na verdade o que ela esta tentando fazer é experimentar, praticar, ousar ou até mesmo por em prova aquilo que está aprendendo ou praticando o conhecimento obtido, explorando a possibilidade de ser corrigido ou de corrigir quem não sabe.
Esse comportamento, com certeza justifica as razões dos 91% de usuários “observadores”. Eles são hostilizados a não tentar, não demonstrar o pouco que sabem. São “colocados no seu devido lugar” quando erram.
A internet potencializa nossas chances de trocar conhecimento, de aprender mais com o outro, de ouvir, experimentar, provar, tentar coisas novas. Estamos preparados para tal? Estamos abertos a um novo modelo de aprendizado onde até mesmo o menos favorecido pode compartilhar e oferecer conhecimento? Estamos prontos a rever nosso conhecimento e verdades absolutas? Prontos para sermos desbancados por crianças de 10 anos que não sabem escrever direito mas podem hackear um iphone? Como lidamos com isso? Nos impressionamos e nos sentimos menores e por isso nos calamos?
Somente a prática nos leva a perfeição!
Os processos educacionais diversos são mais eficientes comprovadamente se aplicados entre pares com afinidades, respeito e principalmente habilidade para trocar: Aprender ensinando!
Como participar de um coletivo, de uma globalização, se ainda nos sentimos fragilizados quando erramos e descontamos nossas frustrações de forma agressiva? Como podemos aproveitar todas as vantagens de milhares de culturas, costumes e comportamentos diferentes se estamos presos à procura do erro do outro para nos sentirmos inteligentes?
A internet vem nos mostrando caminhos: Comunidades, assim como o Fauna Urbana, que une seus pares por afinidade. Temos Furries de todos os tipos, formas e tamanhos, lugares e profissões. Quando observo, converso e convivo com eles, aprendo e compartilho milhares de informações randômicas que, no final de cada 24 horas, somam imensamente informação válida a meu dia a dia. Acho necessário estar aberto a aprender, mesmo quando me perguntam algo.